28/01/2016

A música é a arte e ciência de combinar os sons que agradem aos ouvidos. Pelo menos esta é a definição que encontramos nos dicionários. Mas a música pode ser e oferecer muito mais. Através da musicoterapia, técnica que utiliza a música como forma de tratamento de vários problemas de saúde, muitos benefícios podem ser alcançados. É o que explica a psicóloga clínica e especialista em musicoterapia, Simone Presotti Tibúrcio.

O que é a musicoterapia?

A musicoterapia é o uso sistemático da música e seus elementos como recurso para promoção da saúde e bem estar. Requer uma formação específica, que pode ser alcançada tanto como pós-graduação (no caso dos profissionais que já possuem uma primeira formação na área da saúde ou da educação), ou através de uma graduação que acontece no período de quatro anos. Em Minas Gerais a UFMG oferece o curso para os jovens que se interessarem por esta linda profissão.

Quando e onde surgiu a musicoterapia no mundo e com qual objetivo?

Podemos dizer que o som e a música estão entre as primeiras formas de cura. Ainda hoje, nas sociedades não tecnológicas, a música é um dos poucos recursos usados no cuidado das enfermidades. De forma sistemática, dentro do que se considera ciência, surgiu nos Estados Unidos, no período pós-guerra, quando as enfermeiras usaram este recurso para auxiliar na recuperação dos ex-combatentes. Mas na realidade ela existe desde o início da humanidade e em todo o planeta está cada vez mais valorizada.

E no Brasil, como se deu este processo?

Como nosso país é muito grande a Musicoterapia teve início simultaneamente em vários pontos. No Rio Grande do Sul tivemos a precursora Di Pancaro, que ainda hoje acompanha com entusiasmo e dinamismo todas as conquistas da classe. No Rio de Janeiro a musicista Cecilia Conde está ativa na luta e incentivo de novas conquistas. Em Minas Gerias tivemos nossa querida Didi – Benedicta Borges de Andrade, que iniciou o uso do processo no Instituto Arapiara e foi generosa em espalhar todo seu conhecimento para todos que tivessem interesse em usar o recurso musical em sua prática. Depois foram surgindo os cursos nas universidades e se criando o perfil deste profissional que, atualmente, está inserido no CBO – Código Brasileiro de Ocupação.

Quem é e o que faz o Musicoterapeuta?

Antes de tudo é um apaixonado. Sabemos que a maioria das profissões da área da saúde ainda são pouco valorizadas no mercado de trabalho em nosso país. Então, para o Musicoterapeuta, esta inserção é ainda mais trabalhosa. Tanto a população, que será usuária do serviço, como os demais profissionais da saúde, conhecem o que a musicoterapia pode trazer de benefícios. O fazer do Musicoterapeuta é muito abrangente, principalmente quando pensamos que, além de intervir na promoção da saúde, este profissional é figura importante também para a prevenção.

Quais são as técnicas utilizadas pelo profissional?

As técnicas utilizadas no trabalho vão ter nomenclaturas e especificidades dentro do que seja a formação do musicoterapeuta. Em nossa formação, pesquisa e prática neste campo, que teve início em 1985, tivemos a oportunidade de trocar e partilhar estudos e experiências com os pares de diversos países, o que contribui de forma acumulativa para saber que a base é sempre única. Usar a “música viva”, que nasce a partir da relação com o paciente e de suas necessidades, mesmo que os nomes possam variar, é a tônica do trabalho do musicoterapeuta. Atualmente usamos como base para o trabalho as técnicas da Musicoterapia Neurológica, pois os professores Michael e Corene Thaut da Universidade do Colorado se tornaram parceiros em nossa jornada profissional.

A musicoterapia é trabalhada com qualquer pessoa ou existe um público específico?

Todos os quadros e diagnósticos podem ser beneficiados por este tratamento. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não é necessário ser um grande aficionado por música. Para apresentar esta abrangência gostamos de informar que, mesmo pacientes que apresentam um tipo de perda de audição, na qual a sua causa está relacionada com o nervo vestibulococlear (nervo craniano VIII), o ouvido interino ou centros de processamento central do cérebro, são pacientes que ampliam muito sua percepção do som através do contato com a Musicoterapia. Também as crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que apresentam grande sensibilidade ao som e muitas vezes são vistas tapando seus ouvidos em ambientes barulhentos, encontram na musicoterapia uma forma de lidar com estes estímulos.

Como é feita a avaliação para saber quem deve ou pode ser encaminhado para a musicoterapia?

Os pais e cuidadores que percebem que a música é um recurso realmente motivador para seu familiar e que este pode ser um grande recurso para potencializar os ganhos deste paciente, devem procurar por um musicoterapeuta. A avaliação será feita pelo profissional que irá entrevistar os responsáveis, realizar sessões com o paciente e depois irá apresentar a proposta de tratamento com os objetivos a serem alcançados. Posteriormente o musicoterapeuta entra em contato com demais terapeutas e profissionais que acompanham o caso, com a escola, no caso das crianças, e também a equipe médica.

Quais são os benefícios da musicoterapia para o indivíduo?

Os benefícios almejados estão diretamente ligados ao que for identificado como demanda pelo paciente. Assim, cada caso é um caso. Mas, de forma geral, podemos ressaltar que é uma terapia motivadora pois o contato com os instrumentos é muito atrativo. De forma geral notamos uma alteração no estado de humor e uma alegria e ampliação de interesses.

Como ela pode ser aplicada?

As sessões podem acontecer de forma individual ou em grupo e o ambiente pode ser um consultório particular, uma instituição, um hospital , uma escola e até mesmo em empresas.

A musicoterapia é um tipo de terapia preventiva, curativa ou auxiliar a algum tratamento?

A musicoterapia engloba todas estas possibilidades e pode ser, inclusive, realizada em sessões conjuntas com a fisioterapia, o que torna o processo mais lúdico e prazeroso.

Os resultados observados nas pessoas atendidas por esta terapia são satisfatórios?

Com certeza esta terapia é muito valorizada pelos familiares que acabam considerando a Musicoterapia como aquela que não pode faltar. Sabemos que a motivação é a mola mestra do empenho. Assim, o desejo de tocar, cantar e se expressar acaba levando o paciente a trabalhar sua motricidade, sua fala, linguagem , atenção e interação. Um grupo de mães de crianças que apresentam TEA estão empenhadas em colocar a Musicoterapia como Terapia de Base para esta população, pois percebem, de forma generalizada, que esta terapia faz diferença, principalmente no período inicial e na intervenção precoce.

Os pais ou cuidadores podem aplicar a musicoterapia em casa com as crianças ou familiares que necessitem da terapia?

Não, isto seria usar a música como forma de estimular, mas não é Musicoterapia. Você faz atividades físicas e movimentos em casa com seu familiar que apresenta um problema de saúde, mas você não faz fisioterapia. O mesmo se aplica no caso da Musicoterapia. Mesmo parecendo um recurso inofensivo, a música pode ser iatrogênica (provocar complicações causadas como resultado de um tratamento médico) quando utilizada sem um critério adequado. É necessário consultar um profissional especializado.

Desde o seu surgimento até os dias de hoje a musicoterapia passou por muitas evoluções? O que mudou?

Como toda profissão da saúde a Musicoterapia está sempre ampliando sua atuação e seu reconhecimento pois as novas técnicas de neuroimagem ampliam as possibilidades de pesquisas que confirmam sua validade e expandem sua atuação.

Em sua opinião quais são os grandes desafios para quem trabalha com a musicoterapia no Brasil?

Seriam muitas as possibilidades de conduzir esta resposta, mas vamos escolher falar de um aspecto inesperado. A música é nossa principal ferramenta e recurso para intervir com nosso paciente. Então, se você pensar por este aspecto poderá imaginar que, do ponto de vista do repertório, aquilo que o paciente traz para sua terapia, este já seria um grande desafio. Vivemos em um país enorme com uma riqueza incrível de manifestações sonoras e musicais que devem fazer parte do conhecimento do Musicoterapeuta. Então, este profissional está sempre pesquisando, ouvindo e criando a música que vai deslocar seu paciente para mais um passo rumo ao bem-estar físico, mental e emocional.

Simone Presotti Tibúrcio é psicóloga clínica, especialista em aquisição e desenvolvimento da linguagem. Tem formação em musicoterapia neurológica e é bacharelanda em música, com habilitação em Musicoterapia. É também fundadora da Associação de Musicoterapia de Minas Gerais (AMT-MG).

Nos dias 21 de fevereiro, 3 de abril e 15 de maio de 2016 acontece em Belo Horizonte o Workshop presencial Uma visão teórica e prática dos recursos corporais, sonoros e musicais e sua aplicabilidade nas áreas da saúde e educação. O evento é destinado a profissionais e estudantes da área de saúde e educação. Mais informações:http://musicoterapiabh.blogspot.com.br/2015/03/musicoterapiabh-workshop-para.html